Sexta, 4 Dezembro 2009
Leandro Bogzevicius, 26 anos, casado, trabalha com no ramo do turismo e é motociclista há 5 anos, sendo adepto do moto-turismo, após ter entrado para o Brazil Rider’s, no traz seu relato sobre uma viagem de aventura em que percorreu mais de 8.000 Km por vários estados do Brasil.
Eu sempre tive vontade de fazer algo que me desafiasse, algo incomum para a maioria das pessoas, e como sempre gostei muito de moto e de viajar, a união destes dois gostos em algo grande era o que faltava para mim.
Após 3 anos de planejamento e espera, no dia 30 de maio de 2009 comecei a tornar real um desejo antigo.
A meta da viagem foi dividida em 3 etapas:
Primeira: Ir de São Paulo ( Capital) a Natal Rio Grande do Norte pela BR 101
Segunda: Ir do Rio Grande do Norte ao Pará pelo Sertão
Terceira: Seguir do Pará até o Mato Grosso do Sul e conseqüentemente retornar a São Paulo.
Além de São Paulo em meu roteiro contei com os estados do: Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia , Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará, Mato Grosso, Goiás & Mato Grosso do Sul totalizando 8000 Km, sendo, 550 km de estrada de terra, trecho este que pega uma peq. Parte do Rally dos Sertões e tudo isso viajando sozinho
A escolha da moto:
Eu comprei a Twister para uso urbano e para pequenas viagens. A compra desta moto foi uma transição natural pois eu já estava com uma CG125 há 03 anos e queria uma moto maior.
Escolhi a Twister e não uma Tornado por exemplo, pois me sinto mais confortável com motos baixas, eu já tive uma DT180 e me identifiquei mais com o estilo Naked.
Já para a viagem eu não troquei de moto porque a minha Twister é muito confiável e de fácil manutenção, e tinha certeza que não iria ter problemas com ela, mas o mais importante é que eu queria provar que era possível fazer uma viagem destas com uma moto relativamente pequena e fora do estilo Trail, e queria mostrar que esperar pela moto ideal para realizar um sonho é uma grande perda de tempo, pois muitos motociclistas acham que somente com uma grande moto é possível fazer uma longa viagem ou alguns deixam seus sonhos passarem ao longo da vida por estarem esperando a oportunidade de ter uma moto maior para realizar os seus desafios. Como sempre acreditei que “a maior cilindrada tem que estar dentro de você” e acreditei desde o começo que esta viagem iria dar certo.
O fato de viajar sozinho:
Viajar sozinho não era uma grande preocupação para mim, mas para os meus familiares e amigos era uma grande loucura, porém eu nunca vi desta forma.
O que me deixou mais seguro foi ouvir de quem entende do assunto dizer que viajar sozinho não era perigoso. Foi assim que conheci o Brazil Rider´s em 2007 e conheci através da internet o GAU e o ALLAMO, e ambos me disseram que a grande maioria dos motociclistas viajam sozinho e não é algo perigoso, vc precisa tomar alguns cuidados, mas não é como as pessoas pensam.
Além do que o meu perfil é de estradeiro solitário, pois para longas viagens eu prefiro viajar sozinho. É muito difícil encontrar alguém que tenha uma grande sinergia para um desafio destes, além do que sou detalhista e gosto de cumprir prazos e horários mesmo estando viajando de férias, quando se esta em grupo isso é quase sempre difícil.
A minha única preocupação era com assaltos, mas quando se esta sozinho você se torna um alvo mais fácil, mas isso nunca passou nem perto de acontecer, alias não tive nenhum problema com desentendimentos ou brigas ao longa da estrada.
Eu ouvi uma frase que achei muito coerente e que fez a diferença na viagem: “Os caminhoneiros são os verdadeiros donos da estrada”, pensando assim eu evitei muitos disabores, e na maioria das vezes esses colegas de estrada foram muito gentis.
O que estava me deixando um pouco apreensivo era o de fato uma constante chuva estar castigando a região do Nordeste, até 2 dias antes de iniciar a viagem eu recebi algumas mensagens de alerta por conta do integrante do Brazil Rider´s locais, mas por incrível que parece a viagem toda se passou sem chuva, pelo contrário segui sempre com um constante sol iluminando o meu caminho.
Para a viagem levei um mapa político do Brasil e um GPS, o mapa foi muito útil, já o GPS nem cheguei a usar, por incrível que parece as estradas estavam bem sinalizadas quanto a placas iniciativas, eu recomendo um Mapa atualizado para se levar, ele será o seu melhor amigo em uma viagem destas.
Vamos então a Viagem:
Dei inicio a expedição dia 31 de Maio com o horário fixo de partida as 05hs da manhã, seguindo os conselhos do grande GAU que me disse que se conseguisse fazer 500km antes do meio dia a minha viagem seria muito produtiva, conselho este que pude comprovar a eficiência na prática, pois desta forma sempre tinha a tarde livre com a opção de explorar melhor a região ou de seguir Em frente e adiantar um pouco a viagem.
Segui viagem pela Dutra com muita euforia, mas muito ansioso e preocupado por chegar ao Rio de Janeiro, pois não sabia andar pela cidade, e tinha informações que a Av Brasil por onde iria passar tinha um transito perigoso,mas logo que entrei na cidade vi que não teria dificuldade quanto a isso, e ainda no Rio eu realizei um desejo antigo que era atravessar a ponte Rio – Niterói, sendo contemplado por uma vista lateral do Cristo me dando a maior força, depois de passar por Niterói eu parei para descansar.
No dia seguinte após sair do Rio, cheguei ao estado do Espírito Santo, um lugar que tinha vontade de conhecer. Lá passei por um templo Japonês muito interessante, e logo depois segui rumo a Bahia, estado este que me chamou muito a atenção por conta de suas belas paisagens e belezas naturais, e me arrisquei até a comer um moqueca de camarão “bem quente”, tava boa mas sorte minha que tinha um sal de frutas, ainda no estado Baiano passei por uma grande barragem chamada Ferradura do Cavalo, foi algo interessante, pois nunca havia estado tão perto de uma obra tão grandiosa como esta.
Já no Terceiro dia passei pelo estado de Sergipe um estado muito pequeno assim como o seu vizinho Alagoas, mas que não deixam por menos no quesito belezas naturais, em Alagoas eu perdi muito tempo por conta de um acidente de caminhão que acabou bloqueando a Rodovia por mais de 6hs, para minha sorte só fiquei parado 2hs.
No dia Seguinte parti as 5hs rumo ao estado do Pernambuco e logo cheguei a Recife e a partir daí começaram os grandes buracos devido a uma obra de duplicação que se estendia por kilometros ,foi ai que consegui entender melhor o que o “tal”Pare e Siga que ouvir dizer que iria ver quando passasse pela região.
O Para e Siga trata-se de uma forma de sinalização manual onde os operários bloqueiam uma das faixas da pista dupla para que os veículos possam passar pela contra mão desviando da obra sem causar acidentes.
Mesmo com as pequenas paradas por conta das obras logo eu cheguei ao estado da Paraíba por onde passei rapidamente pois a ansiedade de chegar ao Rio Grande do Norte era grande e era na verdade uma das metas principais da viagem.
Eu tirei muitas fotos durante a viagem, mas a foto que tirei na entrada do estado do Rio Grande do Norte foi muito especial, eu senti uma grande emoção uma grande sensação de vitória incomparável, depois de 76km eu cheguei a Natal onde estava sendo esperado por um simpático casal de amigos a Graça e o Roberto membros da irmandade Braizil Rider´s, e mediante tanta simpatia e hospitalidade não pude recusar o convite de ficar na casa deles, algo que não costumo fazer.
A noite saímos para jantar e no dia seguinte logo cedo saímos para fazer um city tour pela cidade, primeiro fomos em Ponta Negra e lá tiramos algumas fotos no morro do Careca e logo depois seguimos para as Dunas de Genipabu percorrendo a bela via costeira, na volta fui “obrigado” passar a tarde em um hotel do amigo da Graça na via costeira onde fiquei na piscina degustando camarões e outros aperitivos, mais a noite ainda a convite da Graça e do Roberto eu participei da reunião semanal do motoclube Mototribo Potiguar onde fui muito bem recebido.
Após duas noites em Natal chegou a hora de ingressar no Sertão Nordestino, sai de Natal rumo a Juazeiro do Norte no Ceará, pois queria muito conhecer a estatua do Padre Cícero, após o dia de viagem cheguei a Juazeiro e logo na entrada fui perguntando onde ficava o Padre Cícero e fui seguindo as orientações, Av. vai e Av. vem e nada de ver o padre Cícero, até que perguntei novamente como fazia para chegar no Padre Cícero, foi ai que me disseram: Você esta no Padre Cícero e quando perguntei sobre a estatua é que percebi que havia um bairro chamado padre Cícero e que a estatua não ficava lá, pra quem for conhecer o Padre Cícero pergunte sobre como chegar no Horto é lá que esta o monumento.
Após chegar no Horto pude contemplar a beleza do monumento e pude notar que tanto a cidade quanto a estatua são maiores do que eu pensava, nesta noite resolvi dormir na cidade e gentilmente um mototaxi da região me ajudou a procurar uma pousada para dormir,nos fomos em três lugares até acharmos uma opção que fosse em conta e segura , mas o que me surpreendeu foi que o rapaz não aceitou o meu dinheiro por sua ajuda, eu acredito que é por conta da grande simpatia que as pessoas tem pelos motociclistas, pois é muito mais fácil você ser ajudado de moto do que de carro, isso é um fato comprovado.
Logo cedo como sempre, eu segui viagem rumo ao estado do Piauí, a estrada foi dando lugar aos buracos, pontes improvisadas e cactos.
Após uma passada rápida pelo Piauí eu cheguei ao Maranhão e a partir dai a distancia entre os postos foram ficando cada vez maiores e as pontes foram dando lugares as balsas, pois esta região sofreu muito com as chuvas dos meses anteriores.
No Maranhão passei por uma aldeia indígena, a tribo ficava a beira da estrada, havia até um placa indicando a Aldeia, a aldeia era bem organizada e o Índios eram simpáticos, eu até parei um pouco e pude acompanhar rapidamente a movimentação no local e a forma como viviam, o fato de eu estar com a moto com alforjes e outros aparatos chamou a atenção de alguns integrantes da tribo, e alguns deles até vieram falar comigo, foi uma experiência muito agradável.
Depois do Maranhão veio o Tocantins por onde passei rapidamente, pois estava ansioso para cumprir a segunda meta da viagem que era o trecho Rio Grande do Norte x Pará
Muitas pessoas me perguntaram se eu fiquei desanimado quando cheguei no Pará por conta da distância que tinha até chegar em casa, eu sempre respondia com convicção, eu estava muito feliz por estava vendo que tinha conseguido cumprir boa parte da minha viagem e estava sempre tudo dando muito certo, além do que o fato de estar no Pará significava que tinha muita estrada e muitas belezas ainda para apreciar.
O Pará foi um estado que me deixou apreensivo, pois desde o Rio Grande do Norte eu estava sendo alertado sobre os perigos desta região, eu passei até por um cidade que até pouco tempo era proibido o uso de capacetes, pois assim era possível identificar com mais facilidade os bandidos segundo a Policia local, eu mesmo não cheguei a vivenciar nada disso, os caminhoneiros e frentistas me diziam que após as 17hs era melhor eu parar em algum lugar e não ficar andando pela cidade pois moto era coisa de bandido, e ou eu podia levar um tiro sendo confundido com um marginal ou ser roubado por um.
Eu segui as recomendações pois foram vários avisos em diferentes estados mas por fim não vivenciei nenhuma situação que desmerecesse a região, a não ser por uma ajuda involuntária que tive que dar a três policiais, onde em uma blitz eu fui parado e não me pediram habilitação e nem o documento da moto, os policiais apenas disseram: Estamos precisando de dinheiro, o que você pode fazer pela a gente?
Após a contribuição involuntária eu segui para a parte mais empolgante da viagem, que começava na divisa do Pará com o Mato Grosso do Sul, pois a partir daí seriam 550km ininterruptos de estrada de terra e muito, mas muito buraco.
Eu estava muito ansioso por este trecho da viagem, pois eu estava entrando em uma mata virgem e sem nenhum apoio,um lugar totalmente deserto, durante os 550km não teriam postos de gasolina, bares, cidades ou qualquer tipo de apoio.
Para entrar neste trecho eu tive que me preparar devido a falta de apoio, eu enchi o tanque e mais 04 garrafas pets de 2 litros e iniciei o trecho off road da viagem.
Eu posso dizer que nunca vi um céu tão lindo, uma paisagem magnífica e intocada pelo homem, na minha frente passavam tatus, tamanduás e belas aves, eu fiquei horas e horas sem ver ninguém no meu caminho,eram apenas a natureza e eu.
E no meio de toda esta beleza eu achei que lá seria o lugar do meu primeiro tombo de moto, pois perecia inevitável o encontro com o chão devido as condições de buracos e areões tudo isso somado o fato de estar com o pneu liso original da Twister, mas para a minha sorte e alegria nada aconteceu, venci os 550km de estrada de terra no começo da noite as 20hs horário local, naquela região escurece muito tarde, já a camiseta branca deste dia eu tive que jogar fora, não teve jeito.
No dia seguinte sai do Mato Grosso e passei por uma parte de Goiás pegando mais uma balsa e entrei no Mato Grosso do Sul, a terra do Pantanal, de fato é um belo lugar, dormi uma noite lá e segui até Jales já no estado de São Paulo a 650km da capital, onde tinha também grandes amigos a minha espera,e após um belo churrasco de boas vindas e muitas risadas segui para São Paulo no dia seguinte.
Após 13 dias, 16 estados, 8000km, muitos amigos e um grande sonho realizado e cumpri com o meu objetivo.
Fotos: Arquivo pessoal - Leandro Bogzevicius
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